A Medicusmundi e o Centro Terra Viva, duas Organizações não Governamentais (ONG’s) que actuam no sector ambiental em Moçambique, consideram crítico o actual cenário de poluição ambiental em áreas mineiras artesanais de pequena e grande escala.

A preocupação das ONGs advêm do facto da actividade estar a agudizar os impactos sobre o meio ambiente, concretamente nas áreas onde é praticada, causando a turbidez das águas, assoreamento dos rios, devastação da vegetação e consequente degradação dos solos, tornando impróprios para a prática da agricultura como a base da sobrevivência das comunidades.

A inquietação foi manifestada hoje pelo ambientalista e coordenador do projecto Mineração Artesanal, Direitos Ambientais e Culturais na província de Cabo Delgado, Renato Wane, durante a entrevista concedida à AIM para falar do ponto de situação do projecto em curso naquele canto do país.

“A poluição tem causado a devastação da vegetação e consequente degradação dos solos, a contaminação do ar, da água e dos solos, sobretudo pelo mercúrio, tornando estes impróprios para a prática de outras actividades económicas. A mineração artesanal tem o potencial de alterar e criar danos ambientais nos micro ecossistemas das áreas contíguas às zonas onde ela é praticada”, disse.

Renato Wane defende que para se ter uma ideia mais próxima da realidade sobre a poluição no país deve-se fazer estudos aprofundados que permitam avaliar com maior acuidade o impacto e grau de poluição.

Apontou como zonas críticas Lupiliche (na provincia do Niassa), Nairoto, Namanhumbir, Nanlia e Cororine (Cabo Delgado), Murrupula, Moma e Mogovolas (Nampula) e Sussundenga (Manica).

“A questão da problemática da poluição dos rios ocorre um pouco por todo o país em locais onde se pratica a actividade mineira artesanal. Penso que para termos uma ideia mais próxima da realidade deve-se fazer um trabalho mais profundo com base em estudos. Quero acreditar que ao nível das instituições que lidam com esta problemática deva haver algum trabalho feito”, afirmou.

Para reverter o cenário, Renato Wane defende a adopção de melhores técnicas e práticas ambientais mais adequadas a realidade do país, nomeadamente a construção de estacões de processamento do ouro com recurso a bórax, um método que contribui para a minimização da poluição, bem como a realização de campanhas de sensibilização das populações, em particular os mineiros artesanais, a não enveredarem pela lavagem das camadas no curso dos rios.

“É evidente que algumas técnicas são mais onerosas que outras, porque exigem conhecimento técnico especializado e avultados recursos financeiros. Mas há técnicas que penso que ao nosso nível é possível adoptá-las, como a técnica denominada cargas de sedimentos, que consiste no desvio do curso do rio, permitindo fazer a lavagem das camadas fora dele”, frisou.

 Falando sobre a implementação do projecto Mineração Artesanal, Direitos Ambientais e Culturais em Cabo Delgado nos últimos quatro anos, a fonte assegurou que os resultados são satisfatórios, tendo sido desencadeado um trabalho de base com capacitação, treinamento e sensibilização aos mineiros e instituições a vários níveis sobre a problemática.

“A primeira fase do projecto foi levar ao conhecimento e despertar atenção das pessoas sobre a existência do problema, que é real e, a partir dai, dar sequência dos passos subsequentes, essencialmente em empreender acções concretas de mitigação desse problema”, disse.

Segundo a fonte, em Namuno e Montepuez foram introduzidos métodos alternativos de processamento, estabelecendo estações de processamento do ouro, através do método gravitacional bórax, técnica que contribui para a minimização da poluição dos rios por mercúrio e por camadas que extraem os diferentes produtos mineiros.

(AIM)
Paulino Checo/sn