O ex-seleccionador nacional de futebol, em Mocambique, Luís Gonçalves, expulso Quarta-feira por maus resultados, disse que muita coisa aconteceu para que os Mambas (nome de ”guerra” da seleccao nacional), não se qualificassem ao CAN dos Camarões, dentre aspectos organizacionais e a pandemia, para além da influência de terceiros.

Gonçalves diz que a nossa organizaçã, a Federacao Mocambicana de Futebol (FMF), tem muito por melhorar e que não foi devidamente explorado. Diz que o seu contrato não era por objectivo e que terminava em finais de 2022

Luís Gonçalves escalou a sede do grupo Soico para uma entrevista ao programa Ao Ataque do canal televisivo STV, onde abordou o passado, presente e futuro do futebol moçambicano. Nas linhas abaixo segue a entrevista, na íntegra, com o ex-seleccionador nacional, Luís Gonçalves.

Mister, o que falhou para que os Mambas não se qualificassem ao CAN?

Falharam várias coisas. Se olharmos apenas para dentro das quatro linhas e do jogo, essencialmente falhamos porque não fomos eficazes. Criámos muitas oportunidades de golo, muitas situações de golo, e não foi somente neste jogo, mas infelizmente uma das brechas do futebol moçambicano, que é a finalização, continua a penalizar a selecção nacional. Não é por falta de empenho dos jogadores, não é por falta de profissionalismo, mas é um facto. É uma questão de ver as estatísticas do jogo. Neste jogo creio que tivemos cerca de 16 remates, contra oito do adversário. Mas prontos, tivemos muitas oportunidades, tivemos um volume de jogo ofensivo e não marcamos. Isto dentro das quatro linhas. Mas há outras situações de circunstâncias que condicionam a preparação de jogos. É de domínio publico que o Moçambola não está a decorrer por conta da Covid que afectou todas equipas. Mas há selecções que são penalizadas em relação a outras em função das opções que tem a disposição. Quando o PR comunicou que o Moçambola iria parar imediatamente fiz saber que queria realizar um estágio interno de três semanas, e elaborei, inclusivamente uma lista de 32 jogadores e queria minimizar o impacto desta paragem repentina, mas este estágio não chegou a acontecer.

Qual foi a justificação que a FMF alegou para que o estágio não acontecesse?

Falaram de questões de logística e financeiros. E eu como profissional tenho que aceitar. Mas atenção que não estamos aqui a apontar o dedo a A,B ou C, estamos a constatar os factos que aconteceram, e que realmente tiveram alguma influência na preparação da equipa e no resultado final. Mas não me excluo e nunca iria fazer isso, da responsabilidade, tendo que até há bem pouco tempo era o responsável máximo da selecção e porque os resultados não apareceram, tenho a minha quota de responsabilidade. Mas é bom que se diga que a conjuntura não era de todo favorável. Penso que todas as pessoas que acompanham o futebol e estão ligadas ao fenómeno do futebol percebem isso.

Estando cientes Luís Gonçalves que aquela seria a derradeira fase de colocar os Mambas no CAN, teria dito ao elenco de Feisal Sidat que as condições não estavam criadas, nomeadamente a paragem do Moçambola e a não vinda de jogadores estrageiros, para esse objectivo?

Não, não. Não disse porque não é minha obrigação dizer e temos que trabalhar com o que temos. Trabalhar com as condições que temos e, apesar de todas dificuldades, eu acreditava que era possível chegar. Quem viu o jogo sabe que teria sido possível, apesar de olhar para o “onze” e ver muitos jogadores habituais na selecção que não estavam, sem desprimor os que estavam e fizeram um bom jogo, deram o seu melhor e honraram a camisola nacional, mas apesar das dificuldades sempre acreditei porque acredito muito no meu trabalho e nestes jogadores. Há coisas que devem melhorar ao longo do tempo, mas há coisas que não vamos conseguir melhorar amanhã, mas há coisas que decorrem, também, de coisas estruturais, de formação, de condições, etc. Mas não estamos aqui a arranjar desculpas, são factos.

Mister já trabalhou em Moçambique como adjunto de Abel Xavier e conhece o futebol moçambicano. Acreditava neste projecto de levar os Mambas a uma fase final de um CAN, mesmo tendo em conta que há 11 anos o país não chegava lá?

Realmente vim a Moçambique como adjunto de Abel Xavier num projecto, e em Maio de 2018 decidi sair, segui meu caminho e depois estava na China num projecto da federação chinesa. Quando me convidaram para vir treinar a selecção de Moçambique tive que contar com a compreensão dos dirigentes da federação chinesa e agradeço a eles por isso, aceitei porque é um país que também considero meu, e conhecia muito bem este grupo de jogadores, esta geração, com uma e outra entrada e saída, mas a base era a que conhecia desde o início. E por conhecer bem estes jogadores e o seu potencial, eu acreditava e sempre acreditei que era possível fazermos algo muito positivo. Portanto, apesar de todas dificuldades que nós conhecemos do futebol moçambicano continuo a acreditar que esta selecção pode atingir a qualificação a um CAN. Claro que a meio do percurso há outras condições que se levantam, como a pandemia que afecta a toda gente. Mas também acredito que a pandemia veio por mais a nu as organizações mais frágeis e as dificuldades foram muitas por causa disso.

“Nossa organização tem muito por melhorar”

A nossa organização é fragilizada?

A nossa organização tem muito para melhorar e toda gente reconhece isso. E não é mal nenhum. Eu, por exemplo, faço uma reflexão do meu desempenho profissional e não sou perfeito porque cometo erros e procuro sempre melhorar. Mas nós, acima de tudo, temos que ser mais profissionais. Acho que isso é importante. No futebol moçambicano temos que, todos, e não me excluo, temos que tentar ser profissionais. As vezes não é possível e as vezes, por mais profissionais que sejamos, por mais vontade que tenhamos, as vezes as condições não são possíveis, por falta de condições ou porque a conjuntura não é favorável ou porque somos afectados por decisões de terceiros. Mas penso que podemos fazer muito melhor.

Neste projecto que abraçou na selecção nacional, que tinha como principal objectivo qualificar os Mambas ao CAN, houve influência de terceiros que acabaram ditando este percurso inglório?

Para já dizer que não tinha como principal objectivo qualificar os Mambas ao CAN. Apenas era um dos objectivos. Essa foi uma ideia que foi vendida a partir de uma certa altura, mas era um dos objectivos, mas claro todos queríamos qualificar ao CAN e eu e minha equipa técnica fizemos de tudo que estava ao nosso alcance para nos qualificarmos, mas não foi possível. Mas isso não era único objectivo, porque não se faz um contrato até finais de 2022 com único objectivo de ir ao CAN.

Para isso o contrato terminava quando terminasse esta fase de qualificação ao Mundial do Qatar. Os objectivos passavam por uma intervenção mais abrangente, e foi com essa primícia que vim cá, de colaborar no desenvolvimento do futebol moçambicano. Por exemplo, não era somente seleccionador nacional da selecção AA, mas também da selecção sub-23, e coordenador técnico das selecções de formação, sub-20 e sub-17. Só dai já dá para perceber que minha intervenção era muito mais abrangente.

(AIM)

O Pais/JSA